terça-feira, 8 de outubro de 2013

O amor conjugal

O amor conjugal

Todo o relacionamento humano, seja ele amoroso ou apenas no nível da amizade ou, ainda, voltado à caridade, deve ser expressão da Trindade. Na Trindade encontramos uma forma perfeita de relacionamento, onde uma Pessoa se doa inteiramente a Outra a partir de um transbordamento de amor. O Pai se doa totalmente ao Filho e ao Espírito e da mesma forma o Filho e o Espírito se doam totalmente.
Ao criar-nos a Sua imagem, Deus pretendeu que entre nós vivêssemos da mesma forma, em total doação de um para o outro, para que realizássemos o que chamamos de significado esponsal do corpo. Segundo João Paulo II o ser humano só se reconhece como pessoa quando se doa ao outro. Ao doar-se ele se entrega como dom e se reconhece como pessoa e o outro também passa a ser dom para ele. Ambos se realizam cumprindo a tarefa de ser dom. Para o papa, a ação revela a pessoa e, por isso, a ação mais significativa é o doar-se, a qual só é possível manifestar-se através do corpo.
Em Gn 2,27 está escrito que os dois seres humanos estavam nus no Edem e não se envergonhavam. Isto quer dizer que, antes da queda original, homem e mulher podiam olhar um para o outro e encontrar a verdade do ser. Um ser humano via o outro na mais plena verdade do ser, ou seja, como Deus havia criado. Não se via apenas um corpo, mas toda a verdade da pessoa, que se manifestava através do corpo. Após o pecado original perdeu-se essa capacidade, porém não inteiramente. O ser humano teve a natureza ferida, não destruída.
Com a redenção operada por Cristo foi possível ter um maior contato com essa realidade e, através de uma ascese profunda, cada um tem a missão de buscar a verdade da pessoa, tanto do outro como a sua. É preciso buscar reconhecer o outro ser humano em toda a verdade que ele é como pessoa. Da mesma forma, é preciso revelar ao outro a verdade que há em mim, que é o mistério de Deus escondido. Cada um traz em si uma realidade sacramental, que dever ser manifestada através de seu corpo. A realidade invisível, o mistério de Deus, deve ser revelado ao outro. Em última análise temos a missão de revelar Deus aos outros, através de nossos corpos. Devemos tornar presente o mistério escondido em nós, assim como descobri-lo no outro.
O grande modelo de amor é a doação de Cristo na cruz, que se caracteriza por um amor total, livre, fiel e fecundo. Da mesma forma deve ser o amor de um ser humano pelo outro. Isso deve ser mais significativo ainda no amor conjugal, como recorda a carta aos Efésios 5,31-32: “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja.” O texto indica que da mesma forma como Cristo amou a Igreja, entregando-se com um amor livre, total, fiel e fecundo na cruz, deve o homem amar sua mulher e se entregar por ela e, da mesma forma, a mulher deve entregar-se ao homem, seu esposo.
Essa entrega deve ser total doação de um para o outro, onde há um reconhecimento verdadeiro da pessoa e revelando a verdade que há em cada um. Expressão máxima disso no relacionamento conjugal é o ato sexual. O ato sexual, se compreendido e vivido dessa forma, trona-se reflexo da relação Trinitária, pois tona-se a total doação de todo o ser. Por outro lado, se visto apenas como fonte de prazer, perde-se a dimensão do dom e não há revelação da pessoa, correndo o risco de relacionar-se com o outro apenas como se relaciona com um objeto de uso.
Por tudo isso é que na relação conjugal, o ato sexual, deve ser a base da espiritualidade do casal. No ato sexual, o corpo é revelador do mistério de Deus, da verdade da pessoa. O corpo doado torna-se imagem da Trindade e cumpre a missão do ser humano enquanto pessoa.
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Por Diác. Talis Pagot 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Compreendendo a Encíclica "Humanae Vitae" a partir da Teologia do Corpo - parte 1: contexto


            A Encíclica Humanae Vitae de Paulo VI, quando lançada em julho de 1968, foi para muitos um tiro no pé de Santo Padre. Internamente muitos desejavam discutir a questão da regulação da natalidade e dos métodos contraceptivos no Concílio Vaticano II, porém o papa achou que o assunto deveria ser amadurecido, até porque sentiu que muito padres conciliares votariam pela aprovação da “pílula”.
            De fato, se pensarmos no contexto, isso teria gerado uma grande dor de cabeça na vida da Igreja no âmbito da moral sexual. No início da década de 60 surge com força a pílula anticoncepcional e a pressão sobre a Igreja cresce para que a reconheça como legítima. Cabe lembrar que vivia-se uma tentativa de libertação do puritanismo, que muitas vezes gerava a falta afeto nas relações familiares e prevalecia o autoritarismo. Imaginem então no ano de 1968. Estamos em plena revolução cultural e principalmente sexual.
            Paulo VI assume a questão para si e escreve sobre a regulação da natalidade em uma encíclica, com todo o peso da autoridade papal. E, pasmem, sofreu uma rejeição externa já esperada, onde a única notícia dos jornais era: o Papa proíbe a pílula! Porém, sofre também uma grande rejeição interna. Para muitos esse foi um dos motivos da depressão do papa. Na época, no mesmo ano, uma das poucas vozes que saiu em apoio à Humanae Vitae foi a de Dietrich von Hildebrand, o grande amigo de Pio XII e considerado pelo mesmo, extraoficialmente, como o doutor da Igreja do século XX, em seu livro “A encíclica Humanae Vitae, um sinal de contradição”.
Mas há um dado que poucos conhecem. Paulo VI, ao escrever a encíclica tem nas mãos alguns estudos e, dentre eles, está o estudo de uma comissão polonesa coordenada pelo então cardeal Karol Wojtyla. Um biógrafo de Wojtyla diz que 80% da Humanae Vitae provém deste estudo. Pessoalmente acho um pouco exagerado, já que há outras fontes. Contudo, é fato que Paulo VI conhecia a obra Amor e Responsabilidade de Wojtyla e, que havia ficado bem impressionado com a mesma no início da década de 60, sendo de certa forma “influenciado” pelo pensamento de do cardeal polonês. Outro dado interessante é que, além de von Hildebrand, Wojtyla também sai em defesa da Humanae Vitae, com uma série de artigos sobre a mesma.
          Antes de entrar no assunto da encíclica e sua relação com a Teologia do Corpo, que faremos no próximo artigo, é preciso dizer que a Humanae Vitae, um sinal de contradição para a época, torna-se hoje uma resposta fecunda ao velho utilitarismo, já combatido por Wojtyla em “Amor e Responsabilidade”, que só cresceu da década de 1960 pra cá. De contradição à profecia. Mas há uma dificuldade que tenho percebido ultimamente. Quando se fala na Humanae Vitae, muitos tem opinado sem ao menos terem lido a encíclica e certamente, acabam dizem bobagem. No próximo artigo veremos como surge uma grande profecia na sociedade contemporânea através desta encíclica à luz da Teologia do Corpo.
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Por Talis Pagot

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Vadias ou carentes de referência ética?


Há uma máxima na ética em que diz que o agir segue o ser e o supõe, de modo especial quando se trata de ações livres, seguindo as exigências e as possibilidades superiores do ser (Vagaggini, C.). Indo nesse sentido, Karol Wojtyla, em sua principal obra filosófica, “Pessoa e Ato”, tem como tese referencial que, a ação revela a pessoa, ou seja, pelo agir humano é revelado o seu interior. Pois bem! Assistimos a pouco, a “marcha das vadias”, movimento que ocorreu nas principais capitais do mundo, como reivindicação do respeito à mulher e à liberdade sobre seu corpo, clamando também pelo fim da violência contra as mulheres, principalmente contra o estupro.

A violência, seja contra a mulher ou contra qualquer outro grupo humano, é sempre um mal e deve ser contida e punida. Quanto a isso, acho que estamos todos de acordo. Porém, analisando as manifestações, pude notar que a mesma não fora compreendida igualmente por todas as pessoas que saíram às ruas. Havia aquelas que tomaram a frente, imbuídas dos ideais do movimento (que surgiu de um feminismo liberal), que sabiam aonde queriam chegar, porém tinham várias pessoas que estavam ali por pensar que tudo o que se reclame em favor da mulher é bom, e simplesmente saíram as ruas sem saber o que realmente se passava.

Em meio a essas manifestações, vimos expressões escritas no próprio corpo do tipo: “isso não é um convite”, “meu corpo, minhas regras”, “nem puta nem santa, livre!”, “afetos sim, fetos não”, “vadias”, “menos violência, mais orgasmo”, “não sou fast-food”, “estupro não é piada, é violência”, outra trazia em um cartaz uma frase dizendo que dançar funk sem roupa íntima não era emitir um convite ao sexo, mas uma opção sua,  dentre outras muitas frases do gênero.

Com isso, pode-se dizer, que há uma falta de referencia ética que vincule o bem a verdade e a liberdade. A ética que aparece por trás desse tipo de manifestação é do tipo teleológica feminista, que busca o interesse particular do grupo, sem considerar o bem do todo, estruturada sobre os ideais feministas liberais.

Há um duplo problema nesse tipo de reivindicação pela liberdade do corpo. O primeiro é a ideia de pessoa que está por trás disso; o segundo, consequência do primeiro, é o surgimento de um dualismo. O conceito de pessoa, segundo o que se apresentou, considera apenas o “eu”, que não se volta para o “tu”, sinal do individualismo hodierno. Porém, “‘pessoa’ expressa o ser mais íntimo de cada homem, o seu eu, enquanto não consegue entender-se a não ser numa correlação mútua com o tu. Esta relação é essencialmente verbal, pois vive de apelo e de resposta; é dom recebido e é doar, pois ela se fundamenta sobre o dom gratuito, que se torna para nós uma tarefa a ser cumprida livremente. Ela é a relação de amor, pois nela habita uma dinâmica criadora. Não conseguimos dizer ‘eu’, senão na medida em que nos compreendemos relacionados a um tu” (Mysterium Salutis).

Como consequência de uma noção equivocada do conceito de pessoa, principalmente pela visão feminista liberal, corre-se o risco de separamos as vivências corporais do todo que é a pessoa, caindo facilmente no dualismo. Romano Guardini elenca onze dimensões que envolvem o ser humano na sua complexidade, sendo que cada aspecto está inserido no todo e afeta o todo.  Por isso, reclamar uma autonomia absoluta sobre o corpo é negar os aspectos relacionais do ser humano-pessoa.

Talvez isso seja reflexo daquilo que a juventude da geração Y (aqueles que nasceram +/- entre os anos de 1980 e 1995) reclama, quando diz que tudo já foi conquistado pela geração anterior, principalmente no que se refere a sexualidade, e agora é só desfrutar e reivindicar pela garantia do já conquistado. Com isso, não há mais verdadeiros ideais, que conduzam ao bem verdadeiro envolvido por uma liberdade real e verdadeira, não reduzida ao simples querer de cada um.

Por fim, há um grande problema de fundo, que é a perda sentido mistérico do corpo. Para nós cristãos, o corpo envolve um mistério profundo, pois carrega em si um significado esponsal. O significado esponsal do corpo apresenta o ser humano (homem e mulher) em toda a realidade e verdade de seu corpo e sexo e na total liberdade dos mesmos. Revela uma doação recíproca que comunica o amor. Essa comunicação do amor é um grande mistério, no qual se relaciona profundamente com o “Grande Mistério” descrito em Ef 5, 31-32: “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe e se ligará à sua mulher, e ambos serão uma só carne. É grande esse mistério: refiro-me à relação entre Cristo e sua Igreja.” Ou seja, o mistério do amor humano, que se manifesta no corpo, é altamente engrandecido pelo amor de Cristo por sua Igreja, provocando assim, uma mudança profunda no ethos humano, que nos conduz a responder o chamado que Deus faz a cada de nós – a santidade – onde conformamos perfeitamente o ser e o agir.
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Autor: Talis Pagot

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A VIDA NASCENTE

Por Talis Pagot

A vida nascente na perspectiva da sexualidade humana e da paternidade responsável

O início da vida humana está intimamente ligado à sexualidade e à paternidade responsável, que conferem a dignidade à pessoa humana desde o momento da fecundação. Tecnicamente é possível desvincular a vida nascente da sexualidade e da responsabilidade, como nos casos de uma fertilização in vitro ou de uma possível clonagem humana. Porém, pode ser que a dignidade da pessoa, nestes casos, fique suspensa. A partir disso, gostaria de apresentar alguns argumentos que nos ajudem a refletir sobre a importância desses dois aspectos.
           
A carta encíclica de Paulo VI, Humanae Vitae, chama a atenção para a paternidade responsável como fruto do amor conjugal. Seguindo esse pensamento, via de regra, um novo ser deveria nascer e ter o direito de nascer como fruto de uma relação de amor esponsal, sendo o ápice da relação do amor entre um homem e uma mulher. Torna-se necessário, para tal, compreender a totalidade do significado da sexualidade humana para que sirva de base para reivindicar um mínimo de dignidade à vida nascente.

Aurelio Fernández relaciona oito princípios que segundo a ciência compõem a sexualidade especificamente humana distinguindo assim da sexualidade apenas instintiva que no relacionamento homem e mulher leva a fazer do outro um objeto de uso[1]:

a) Genético: a diferença sexual se origina já nos mesmos genes que constituem a sexualidade do ser humano: é o sexo cromossômico. Biologicamente estes são os dados: tem-se um patrimônio genético de 44 cromossomos, mas dois cromossomos sexuais X, tal sujeito será do sexo feminino (ou seja, 22 pares mais um XX). Pelo contário; se se tem um patrimônio genético com 44 cromossomos mais um cromossomo X e outro Y, é do sexo masculino (ou seja, 22 pares, mais outro par XY).  

b) Morfológico-genital: a diferença sexuada entre o homem e a mulher suporta uma configuração somática muito diferenciada, certamente na genitalidade masculina e feminina, mas também em outros dados secundários do homem (por exemplo, a barba) e da mulher (a largura do quadril). Porém, voltar-se ao nível meramente genital acusa no indivíduo uma falta de amadurecimento sexual;

c) Instintivo: a sexualidade é um instinto fundamental e primário do ser humano: tem a finalidade de continuar a espécie gerando novos indivíduos da raça humana, se bem, como é evidente, não se segue de cada ato sexual. Pela grandeza do fim procriador, tal instinto se mostra especialmente forte e, em ocasiões não é fácil dominá-lo. É uma mútua atração entre o homem e a mulher que se manifesta já à nível primário. Com efeito, o óvulo, como célula atrai o espermatozóide e do encontro se origina a fecundação;

d) Cognoscitivo: a sexualidade do ser humano não é puro instinto, como nos animais, senão que é humana, e por isso supõe também o uso da razão;

e) Voluntário: a qualidade instintiva da sexualidade supõe também a vontade de domínio e a liberdade de seu exercício. Consequentemente, a responsabilidade que se adquire quando se leva a cabo – daí a expressão maternidade e paternidade responsáveis –. Tal caráter voluntário leva consigo que se possa considerar um delito quando se exerce contra a vontade de outro.

f) Afetivo: a sexualidade humana integra a totalidade da pessoa, afeta profundamente a psicologia do homem e da mulher. Daí a importância do componente afetivo-sentimental no surgimento e desenvolvimento das relações sexuais entre o homem e a mulher. Quando a sexualidade se afasta do amor, se desumaniza. Isto faz com que careça de sentido a expressão “fazer amor”, pois o amor não se “faz” como se fazem coisas ou instrumentos, senão que se vive racional, voluntária e afetivamente;

g) Prazeroso: O prazer é um componente essencial que acompanha a atividade sexual, por ele deve se procurar e, como não é um fator secundário, tampouco se deve evitar. O prazer não é o orgasmo fisiológico, senão, a satisfação do encontro homem-mulher. Ambos elementos – o prazer físico e o amor afetivo – se enriquecem mutuamente. O perigo surge porque que o homem, à diferença do animal, pode separar o prazer da afetividade, da racionalidade e da procriação.

h) Procriador: finalmente, a procriação é também um componente essencial da sexualidade, dado que, por sua própria natureza, a atividade sexual homem-mulher leva consigo a gestação de uma nova vida, se bem que não se realiza em cada ato, pois a fecundidade está inscrita na dimensão biológica da mulher.

Estes oito princípios nos mostram em primeiro lugar, a complexidade da sexualidade humana e projeta as possíveis conseqüências de uma vivência sexual isolada de sua completude. Eles estão fundados sobre o modelo da ética personalista que propõe um

“desafio ao desenvolvimento humano, livre de manipulações econômicas ou políticas, apelando para uma constatação sobre si mesmo e sua própria interioridade, possível a todos para uma recordação; trazer à memória do coração as aspirações latentes no nível existencial mais profundo para assumi-las ao nível da consciência.”[2]

A sexualidade também exige um orientar-se para o outro, suscitando a descoberta da “intrínseca relação entre amor e liberdade, entre a afetividade e a opção de como demonstrá-la e vivê-la”[3], tudo isso enraizado num altruísmo próprio do ser humano, que vai orientando e também o constituindo a pessoa num processo dinâmico, desde a concepção até o final da vida.

Portanto, quando nos colocamos diante da reflexão sobre o início da vida humana devemos ter presente a grande responsabilidade que a envolve. A concepção de uma nova vida torna-se desumanizada desde o princípio, se negamos ao ser nascente a possibilidade de ser fruto de uma paternidade responsável e comprometida, que segundo a ética personalista só acontece dentre um convívio sexual e afetivo também responsável, próprio de uma relação de amor conjugal, levando em conta a complexidade do ser humano e favorecendo que ele viva em harmonia com todas as suas dimensões propriamente humanas.


[1]Cf.: FERNANDEZ, Aurélio. Teología moral: curso fundamental de la moral católica. 4.ed. rev. amp. Madrid: Palabra, 2010, p. 339-341.
[2] CERQUEIRA, Elizabeth Kipman (org.). Sexualidade gênero e desafios bioéticos. São Caetano do Sul: Difusão, 2011, p.41.
[3] CERQUEIRA, Elizabeth Kipman (org.). Sexualidade gênero e desafios bioéticos. São Caetano do Sul: Difusão, 2011, p.110.

O ABORTO SEMPRE FOI E É CONTRA AS MULHERES!

O ABORTO COMO EXPRESSÃO DA LIBERTAÇÃO DA MULHER NÃO É APENAS UMA FRAUDE MORAL, É TAMBÉM UMA MENTIRA HISTÓRICA. O ABORTO SEMPRE FOI E É CONTRA AS MULHERES!


Já escrevi dezenas de textos demonstrando por que o aborto é moralmente injustificável. Neste artigo, quero desmontar algumas falácias históricas. Os que, como este escriba, são contrários à legalização, ganham referências e argumentos novos. Os que não se convencerem, quando menos, podem tentar melhorar os próprios argumentos.
Em dezembro de 2006, escrevi para a VEJA uma longa resenha, que acabou sendo publicada como “matéria especial”, do livro “The Rise of Christianity: a Sociologist Reconsiders History”, do americano Rodney Stark, hoje já traduzido:“O Crescimento do Cristianismo: Um Sociólogo Reconsidera a História”, publicado pela Editora Paulinas. Leiam-no, cristãos e não-cristãos. A íntegra do texto está aqui. Eu me lembrei de livro e resenha ao ler as declarações da nova ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci, que considera o aborto uma espécie, assim, de libertação das mulheres, especialmente das mais pobres. Esse também foi o teor de muitos comentários que chegaram, alguns com impressionante violência. Houve até uma senhora que afirmou que eu deveria ser “executado”. Por quê? Bem, entendi que é porque não concordo com ela. Pelo visto, em nome de suas convicções, ela não se limitaria a eliminar os fetos. Nos dias de hoje, melhor ser tartaruga.
Boa parte dos que me atacaram de modo impublicável — sim, há comentários de leitores que discordam de mim — revela, na verdade, um preconceito anticristão, anticatólico em particular, que chega a assustar. Dá para ter uma idéia do que fariam se chegassem ao poder. Estão de tal sorte convictos de que a religião é um mal que chegam a  revelar uma semente missionária. Se o estado pelo qual anseiam se concretizasse, aceitariam a tarefa de eliminar os “papa-hóstias” e os evangélicos em nome do progresso social. Constato, um tanto escandalizado, que a defesa incondicional do aborto, em muitos casos, é só uma das manifestações da militância anti-religiosa. Há nesses espíritos certa, como chamarei?, compulsão da desmistificação. Por que alguns fetos não poderiam pagar por isso, não é mesmo?
Mas volto àquela magnífica tese do “aborto como expressão a libertação das mulheres”. Retomo parte daquela resenha para que se desnude uma mentira. Vamos a um breve passeio pelos primeiros séculos do cristianismo para que possamos voltar aos dias de hoje.
Em seu magnífico livro, Stark, que é professor de sociologia e religião comparada da Universidade de Washington, lembra que, por volta do ano 200, havia em Roma 131 homens para cada 100 mulheres e 140 para cada 100 na Itália, Ásia Menor e África. O infanticídio de meninas — porque meninas — e de meninos com deficiências era “moralmente aceitável e praticado em todas as classes”. Cristo e o cristianismo santificaram o corpo, fizeram-no bendito, porque morada da alma, cuja imortalidade já havia sido declarada pelos gregos. Cristo inventou o ser humano intransitivo, que não depende de nenhuma condição ou qualidade para integrar a irmandade universal. CRISTO INVENTOU A NOÇÃO QUE TEMOS DE HUMANIDADE! As mulheres, por razões até muito práticas, gostaram.
No casamento cristão, que é indissolúvel, as obrigações do marido, observa Stark, não são menores do que as das mulheres. A unidade da família era garantida com a proibição do divórcio, do incesto, da infidelidade conjugal, da poligamia e do aborto, a principal causa, então, da morte de mulheres em idade fértilA pauta do feminismo radical se volta hoje contra as interdições cristãs que ajudaram a formar a família, a propagar a fé e a proteger as mulheres da morte e da sujeição. Quando Constantino assina o Édito de Milão, a religião dos doze apóstolos já somava 6 milhões de pessoas.
Se as mulheres, especialmente as mulheres pobres, foram o grande esteio do cristianismo primitivo, Stark demonstra ser equivocada a tese de que aquela era uma religião apenas dos humildes. O “cristianismo proletário” serve ao proselitismo, mas não à verdade. A nova doutrina logo ganhou adeptos entre as classes educadas também. Provam-no os primeiros textos escritos por cristãos, com claro domínio da especulação filosófica. Mas não só. Se o cristianismo era uma religião talhada para os escravos — “os pobres rezarão enquanto os ricos se divertem” (em inglês, dá um bom trocadilho: “the poor will pray while the rich play“) —, Stark demonstra que o novo credo trazia uma resposta à grande questão filosófica posta até então: a vitória sobre a morte.
Nos primeiros séculos do cristianismo, a fé se espalhou nas cidades — não foi uma “religião de pastores”. Um caso ilustra bem o motivo. Entre 165 e 180, a peste mata, no curso de quinze anos, praticamente um terço da população do Império Romano, incluindo o imperador Marco Aurélio — o filme Gladiador mente ao acusar seu filho e sucessor, Cômodo, de tê-lo assassinado. Outra epidemia, em 251, provavelmente de sarampo, também mata às pencas. Segundo Stark, amor ao próximo, misericórdia e compaixão fizeram com que a taxa de sobrevivência entre os cristãos fosse maior do que entre os pagãos. Mais:  acreditavam no dogma da Cruz e, pois, na redenção que sucede ao sofrimento. O ambiente miserável das cidades, de fato, contribuía para a pregação da fraternidade universal: os cristãos são os inventores da rede de solidariedade social, especialmente quando começaram a contar com a ajuda de adeptos endinheirados e, nas palavras de Stark, “revitalizaram a vida nas cidades greco-romanas”. Os cristãos inventaram as ONGs - as sérias.
FaláciasNão, grandes bocós!!! O cristianismo, na origem, é a religião da inclusão, da solidariedade e da vida. E A INTERDIÇÃO AO ABORTO — VÁ ESTUDAR, DONA ELEONORA!!! — CONFERIU DIGNIDADE À MULHER E PROTEGEU-A DA HUMILHAÇÃO E DA MORTE, bem como todos os outros valores que constituem algumas das noções de família que vigoram ainda hoje. Isso a que os cretinos chamam “família burguesa” é, na verdade, na origem, a família cristã, muito antes do desenvolvimento do capitalismo. O cristianismo se expandiu, ora vejam, como uma das formas de proteção às mulheres e às crianças.
Qualquer estudioso sério e dedicado sabe que não é exatamente a pobreza que joga as crianças nas ruas — ou haveria um exercito delas perambulando por aí. Se considerarmos o número de pobres no Brasil, há poucas. O que lança as crianças às várias formas de abandono — inclusive o abandono dos ricos, que existe — é a família desestruturada, que perdeu a noção de valores. Não precisamos matar as nossas crianças. Precisamos, isto sim, é cultivar valores para fazer pais e mães responsáveis.
Morticínio de mulheresVi há coisa de dois dias uma reportagem na TV sobre a dificuldade dos chineses de arrumar uma mulher para casar. Alguns pagam até R$ 19 mil por uma noiva. É uma decorrência da rígida política chinesa de controle da natalidade, que impõe dificuldades aos casais que têm mais de um filho. Por razões culturais, que acabam sendo econômicas, os casais optam, então, por um menino e praticam o chamado aborto seletivo: “É menina? Então tira!” Nesse particular, a China é certamente o paraíso de algumas das nossas feministas e de muitos dos nossos engenheiros sociais, não é? A prática a que se chama “libertação” por aqui serve para… matar mulheres! Repete-se, assim, o padrão vigente no mundo helênico. Não dispondo da ultrassonografia, muitas meninas eram simplesmente eliminadas ao nascer. E se fazia o mesmo com os deficientes. A China moderna repete as mesmíssimas brutalidades combatidas pelo cristianismo primitivo — com a diferença de que tem como perscrutar o ventre.
Os abortistas fazem de tudo para ignorar o assunto. Mas é certo que, nos países que legalizaram o aborto, o expediente é empregado para eliminar os deficientes e, sim, para impedir o nascimento de meninas, ainda hoje consideradas economicamente menos viáveis do que os meninos. Ainda que isso fosse verdade apenas na China — não é —, já estaríamos falando de um quarto da humanidade.
Que zorra de humanismo vigarista é esse que estabelece as precondições para que uma vida humana possa ser considerada “intocável”? Se não querem ver no corpo humano a morada de Deus, a exemplo dos cristãos, que o considerem, ao menos, a morada do “Homem”.
Por Reinaldo Azevedo
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Fonte:http://lancarasredes.blogspot.com/2012/02/o-aborto-sempre-foi-e-e-contra-as.html